O Direito de Escolha do Consumidor

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Joana gosta de alimentos orgânicos. Cláudia prefere os produzidos pela agricultura familiar. José gosta de uma carne bovina bem suculenta e gordinha, proveniente de animais de raça Europeia. Isabela decidiu optar por uma alimentação vegana há um ano e meio, então obviamente não consome carne nem qualquer outro produto de origem animal. Está tentando convencer o Caio, seu namorado, a passar seu recém adotado vegetarianismo para o próximo nível.

Pedro prefere um cupim de boi zebuíno assado longamente em celofane, bem macio e saboroso. Já Bete prefere cortes de carne magra, como o lagarto, de preferência recheados e com molho.  Alberto é fã de tecnologia, então adora saber que técnicas modernas como georreferenciamento, nutrição de precisão, medicamentos melhoradores de performance (como antibióticos e beta-agonistas) e softwares de gestão foram usados na propriedade que fornece carne para seu açougue boutique, no qual mostra aos clientes a propriedade onde o animal foi produzido.  Carlos gosta de assar uma picanha com camada de gordura bem espessa, produzida por animal terminado em confinamento e alimentado com dieta rica em grãos. Já o Cristiano está mesmo preocupado em saber se ele conseguirá comprar carne para o final de semana, pois o final do salário chegou antes do final do mês.

Quem está certo? E quem está errado? Deve toda a cadeia de produção de alimentos procurar atender a Joana e desprezar as preferências do Pedro? Deve a Bete ser convencida de que carnes com maior teor de gordura fariam pratos mais saborosos? Devemos talvez parar de produzir carne, já que parece haver ultimamente um aumento de pessoas com dietas restritivas à carne (vegetarianismo, veganismo)? Devemos dizer para os consumidores de orgânicos que os alimentos produzidos de forma convencional são muito seguros e saudáveis? Deve a cadeia produtiva da carne seguir buscando técnicas de produtividade que reduzam os custos para o consumidor, ampliando assim o mercado consumidor? Devem os esforços de marketing focar em segmentos que estão crescendo, mercados de nicho ou no grande mercado consumidor que não apresenta maiores preocupações?

Penso que a resposta é muito simples: todos os consumidores merecem ter suas demandas atendidas e seus direitos de escolha preservados.

É fácil observarmos que existem alguns consumidores mais exaltados e que gostam de expor ao mundo suas preferências alimentares, muitas vezes restritivas à algum alimento, e que por terem uma crença muito arraigada nesta decisão tornam-se ativistas desta causa, e dedicam bastante energia convencendo mais pessoas a seguirem os mesmos preceitos. Usam redes sociais, blogs, participam de mobilizações em prol da causa escolhida, e por frequentarem ambientes ou restringirem-se à grupos nas redes sociais com a mesma linha de pensamento, passam a entender que o mundo – ou pelo menos a maioria das pessoas – compartilha destas ideias. E ficam assim cada vez mais certos de que têm razão.

No lado diametralmente oposto, existem pessoas convictas de que alimentos como a carne bovina devam fazer parte da alimentação diária de suas famílias, e defendem com unhas e dentes esta posição. Promovem churrascos para grandes rodas de amigos, frequentam eventos agropecuários e muitas vezes estão de alguma forma envolvidos na produção pecuária. Têm dificuldade de aceitar dialogar com alguém que pense diferente.

Como em várias outras situações onde ideias opostas se encontram, basta colocar estes dois personagens frente-à-frente para provocar-se uma discussão calorosa, onde provavelmente sairão “faíscas” e cada um irá querer convencer o outro que ele, sim, é quem tem razão.

Fato é que os ativistas de qualquer causa, seja esta uma causa ambiental, dos direitos dos animais, ou de preferências alimentares restritivas, tendem a ser bastante vocais, engajados e dedicados à sua causa – e tem direito de sê-lo. Por outro lado, a maioria das pessoas está tocando sua vida com outras preocupações que não estas, ficando, portanto,em “silêncio”, ou pelo menos não se envolvendo em discussões nem tentando convencer mais gente de suas crenças.

O cenário que surge por consequência é o de uma minoria ruidosa, que acaba falando mais alto do que a maioria que permanece silenciosa. Pode-se, portanto, achar que a minoria, que faz mais barulho, está se tornando a maioria, o que provavelmente não é verdade – a maioria apenas prefere seguir suas preferências de vida sem vocalizá-las para a sociedade.

O risco que que vários países correm é que a minoria ativista e ruidosa acaba reverberando e pressionando os decisores de políticas públicas que estas demandas partem da maioria da sociedade, o que pode gerar a criação de leis em resposta à esta pressão que dificultam os sistemas produtivos e distorcem realidades.

Um exemplo prático nos foi dado por um representante da COPA-COGECA (entidade que representa os agropecuaristas europeus) há alguns anos atrás. Os ativistas de bem-estar animal tinham pressionado tanto que os decisores criaram legislações exigindo que todo o transporte de suínos em determinados países fosse feito em caminhões onde o compartimento de carga fosse refrigerado, para garantir o conforto térmico dos animais. Porém não havia nenhuma obrigatoriedade que o motorista do caminhão tivesse, ele também, uma cabine climatizada. Faz sentido?

Em resumo, nossa opinião é a seguinte: como aprendemos com nossos sábios pais, a minha liberdade e os meus direitos vão até onde vai a liberdade do outro. Só porque eu acho que os alimentos orgânicos são os corretos, eu não devo pressionar as autoridades ou os produtores a mudar toda a produção para a orgânica. Se eu gosto de alta tecnologia e investimento, não devo tampouco desqualificar os que preferem animais produzidos com menor emprego de recursos tecnológicos.

Todos os consumidores têm o direito de escolha, e é por isto que devemos lutar. O direito da livre escolha. Busque suas preferências – e o mercado estará aí para atendê-las. Mas não julgue que quem pensa diferente de você está errado – afinal ele também tem o seu direito de escolha, que deve sempre ser respeitado e preservado. Orgânico, com antibióticos, produzido em confinamento, a pasto, de grandes ou de pequenas propriedades: todas as opções estão disponíveis (felizmente), e isto é vital para uma sociedade de consumo equilibrada.

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Andréa Veríssimo

Médica veterinária e Mestre em Administração Rural pela Lincoln University da Nova Zelândia. Apaixonada por carne, teve na infância vivida na fazenda de gado de corte e arroz da família o início deste fascínio, que pautou sua atuação profissional na fundação do SIC – Serviço de Informação da Carne e na promoção internacional da carne brasileira, quando gerenciou o Programa Brazilian Beef da ABIEC. Muitos churrascos para europeus, asiáticos e árabes depois (foi sempre tão bom que nem parecia trabalho!), especializou-se em public affairs ao atuar na Elanco Saúde Animal e BASF Agro e FIERGS. Mãe, esposa e hoje pecuarista no sul do Brasil, além de proprietária da Avelã Public Affairs, continua adorando aprender mais sobre tudo e explicar ao mundo urbano o que é o agronegócio, esclarecendo dúvidas e contando histórias.

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Andréa Veríssimo

Médica veterinária e Mestre em Administração Rural pela Lincoln University da Nova Zelândia. Apaixonada por carne, teve na infância vivida na fazenda de gado de corte e arroz da família o início deste fascínio, que pautou sua atuação profissional na fundação do SIC – Serviço de Informação da Carne e na promoção internacional da carne brasileira, quando gerenciou o Programa Brazilian Beef da ABIEC. Muitos churrascos para europeus, asiáticos e árabes depois (foi sempre tão bom que nem parecia trabalho!), especializou-se em public affairs ao atuar na Elanco Saúde Animal e BASF Agro e FIERGS. Mãe, esposa e hoje pecuarista no sul do Brasil, além de proprietária da Avelã Public Affairs, continua adorando aprender mais sobre tudo e explicar ao mundo urbano o que é o agronegócio, esclarecendo dúvidas e contando histórias.

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