A Doma

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Como escreveu uma vez Abílio de Barros, sem os cavalos teríamos vivido séculos em ilhas culturais. Junto às mulas e burros, eles ajudaram o homem a desbravar esse mundão de meu Deus, a expandir a agricultura e pecuária pelo globo, arando terras e tocando comitivas de gado. Desde tempos remotos, cavalo e homem se conectam por meio da doma, ciência esta que faz da dupla uma unidade, torna o animal uma extensão do corpo humano. Tal tripé, cavalo-homem-doma, fez, faz e ainda fará parte importante da produção de carne nos rincões do mundo.

A estreita relação cavalo e homem remonta ao passado de antigas civilizações, quando grandes batalhas foram travadas e expedições desenharam o mapa geográfico atual. No desenvolvimento da atividade pecuária no Brasil Império os cavalos foram muito importantes no transporte de pessoas, mantimentos e mercadorias ao longo do território que, ao passar dos séculos, vinha sendo povoado por bandeirantes, missões jesuítas e aventureiros. Além disso, eram ferramenta fundamental sob a condução dos vaqueiros para manejar rebanhos de gado nas planícies do pampa gaúcho e pantanais, fraldas de serra no triângulo mineiro e sul de Goiás. No século XIX e até meados do século XX, foi muito comum o transporte de gado via comitivas, as quais cruzavam os campos norteadas por cavaleiros, quase sempre rumo ao estado de São Paulo, onde surgiam os primeiros frigoríficos do País.

O cavalo por si só pode se tornar um amigo, um adorno ou uma figura de apreciação, devido à beleza e encantamento natural que possui. Contudo, para a execução das suas funções nobres e imprescindíveis à pecuária, como conduzir rebanhos e efetuar manejos, a doma tem um papel primordial. No linguajar campeiro, a doma se divide em dois tipos principais: a doma convencional e a doma racional. Ambas conseguem transformar cavalos xucros (arredios e bravios) em animais mais dóceis e adestrados. Sem dúvida é uma ciência que exige muito estudo e prática, haja visto os riscos inerentes ao seu exercício, como escoriações e lesões frutos de tombos e coices.

A doma convencional tem ritos especiais que se iniciam palanqueando o animal para que atenda ao cabresto. Depois é preciso tirar as “cócegas” e os sestros, o que se faz com toques, manuseios e escovas. Em seguida vem a colocação da traia, apertada com a chincha e barrigueira sobre um arreio geralmente pequeno, específico para tal arte. Por fim é a montaria que quase sempre é seguida de corcoveios, andada de lado e “ergueção” de cabeça, pondo ou não o vaqueiro no chão. Nos fundões do Brasil ainda se ouve os apitos dos peões quando assim amansam e é fácil escutar histórias e causos de domas fabulosas que moram no imaginário dos sertanejos e chegam até inspirar músicas instrumentais, que nos diga Almir.

A doma racional já é mais aprimorada e lança mão de artifícios e técnicas de persuasão do cavalo. A proposta é que ele se deixe montar e que o cavaleiro realize todas as atividades, sendo, ao mesmo tempo, prazeroso a atividade ao próprio animal. Tal doma exige paciência e calma, podendo muitas vezes levar mais tempo que a convencional. Hoje em dia há domadores que ministram cursos sobre a técnica, o que de fato tem feito ela crescer e ser adotada cada vez mais nas fazendas de pecuária.

Cavalgando junto aos recentes avanços das tecnologias, como o uso de quadriciclos e até mesmo drones e helicópteros para conduzir rebanhos, os cavalos, as mulas e os burros ainda se fazem muito presentes na lida diária das fazendas, sendo, além de grandes companheiros do homem, instrumentos primordiais à produção de carne. São, por assim dizer, como nossos pensamentos e ímpetos que temos que domá-los e canalizá-los para as devidas e nobres funções, em galope soberano sem à loucura do mundo se entregar.

 

Texto por José Pádua

Especialista em Produção e Nutrição de Ruminantes pela Esalq-USP, Médico Veterinário pela Unesp-Jaboticabal, Consultor-sócio da Terra Desenvolvimento Agropecuário, Membro da Comissão Jovem da Famasul-MS.

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