Boi Limboso

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Diante do atual cenário conflituoso em que vivemos no Brasil e no Mundo, meio a esmo, veio-me a lembrança das funções que os bois sinuelos exercem nas fazendas e, com ela, a memória do Boi Limboso. Esses bois acalmam os nervos e ajudam a conduzir rebanhos que de alguma forma estão ou são ariscos, contribuindo para que manejos importantes sejam efetuados, evitando estresse e danos aos animais e à carne.
Por conta da mansidão e obediência os bois sinuelos são muito usados para arrebanhar gado bagual (bravo ou arisco) e auxiliar na condução de animais recém-chegados ou, ainda jovens, quando tocados à cavalo. Geralmente são animais mais velhos que se fazem valer da experiência de conhecer os meandros de cada pasto e capão de mato, de conhecer a voz dos capatazes e dos vaqueiros, de saberem seus próprios nomes e, quando chamados, de entenderem que tem à frente mais uma missão de guiar. Tais animais estão para a lida assim como estão para nós os pais, professores e mentores, que se aproximam, acalmam-nos e mostram-nos o caminho. Por deterem tão importante função comumente são alojados nos piquetes à beira das casas, com sempre boa oferta de comida e, por isso, sempre estão vistosos apesar da rotina ativa.

O primeiro boi sinuelo que conheci foi o Limboso, ainda criança quando visitava a Fazenda Lourdes no Pantanal da Nhecolândia. Limboso liderava o rebanho de sinuelos da fazenda, era o primeiro a se aproximar dos lotes de animais que seriam conduzidos, sendo sempre o ponteiro, dando ritmo à marcha. Era imponente e tinha as guampas “banana”, bem ao estilo do boi pantaneiro. Limboso e sua trupe possibilitavam importantes manejos na fazenda, haja visto que fazendas no Pantanal possuem em sua maioria grandes extensões de pastos, sem corredores e distantes dos currais, o que dificulta a execução de ações que na “serra” (áreas altas em outros biomas) são mais fáceis. Atividades como a desmama dos bezerros, toque das matrizes e venda de animais somente eram executadas com a presença serena do Limboso e seus liderados.
Bovinos quando bravos e mal manejados podem impossibilitar que vacinações e desverminações sejam aplicados e, devido à agitação, podem se lesionar durante a permanência nos currais de manejo. Tudo isso compromete a saúde dos animais e irá, por conseqüência, comprometer a qualidade da carne a ser produzida, tendo em vista que o estresse e lesões corporais interferem de forma negativa nas características da carne.
Contudo, o aprimoramento estrutural das fazendas de pecuária de corte tem reduzido a necessidade dos sinuelos. Além disso, estudos recentes têm contribuído para o desenvolvimento de novos conceitos de manejo, nos quais impera a racionalidade, que, bem aplicada, contribui sobremaneira para a redução de percalços como lesões e acidentes com trabalhadores. Os currais anti-estresse, o manejo com bandeiras e, mais recente, a técnica “nada nas mãos” são exemplos claros de avanços. É uma tendência natural que faz valer a frase boiadeira de que “não existe gado bravo, existe gado mal manejado”, apesar de existirem animais que naturalmente nascem mais reativos que os outros, mas isso é prosa para outro dia.


Mesmo com o avanço das técnicas de manejo, mora na lembrança dos boiadeiros as levas de bois sinuelos e suas empreitadas, e se procurar bem ao longo das fazendas no Pantanal, no Chaco paraguaio e boliviano, ainda vai se escutar os vaqueiros aboiarem, convocando seus bois para mais alguma jornada de conduzir. Esse mesmo chamado ecoa em nossas mentes no atual momento da humanidade, em que se preze a calma, o discernimento e a segurança de saber que estamos sendo bem guiados por um bom caminho, para uma pecuária melhor, um País melhor.

Texto por José Pádua

Especialista em Produção e Nutrição de Ruminantes pela Esalq-USP, Médico Veterinário pela Unesp-Jaboticabal, Consultor-sócio da Terra Desenvolvimento Agropecuário, Membro da Comissão Jovem da Famasul-MS.

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